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A fruta que sonhava
Todo dia ela olhava pro chão e sonhava. Pensava na maciez das folhas de outono, feitas em tapete lá embaixo, de aparência macia. Via o baile das folhas que rodopiavam quando o vento lhes acariciava suavemente, numa espécie de balé tentador, lindo. Olhava de cima, presa pelo galho e sonhava em um dia bailar entre aquelas folhas. Mas como fruto que era, imagina que este destino lhe seria negado. Que galho cruel aquele que a prendia e a imobilizava daquela maneira! Sim, ela podia sentir o vento, mas voar com ele, como as folhas secas faziam, ah...isso não! E invejava as folhas em seus movimentos divertidos, praguejando seu destino.
E ela, fruto que era estava ali, vendo tudo de cima. Como quem só pode ver a festa pela televisão. Aquela fruta queria estar lá embaixo, onde as coisas eram movimentadas. Via, vez por outra, um animal da floresta passar por debaixo da árvore e pensava nas novas amizades que poderia fazer se estivesse lá embaixo. Ah...que vida dura a de uma fruta totalmente grudada ao galho que lhe tirava a liberdade! Odiava aquele galho.
Ela queria dançar com as folhas. E um dia, de repente, como manda a natureza, foi pega de surpresa e caiu ao chão. Pronto, estava exatamente onde queria! Foi um tombo duro, mas ela escapou ilesa e exultava de felicidade em pensar na nova situação. Agora é que as coisas iriam ficar boas de verdade. Agora era só bailar ao vento e fazer novos amigos, os animais que via vez por outra.
Mas o tempo passou. E o vento jamais a levantou em giros frenéticos.
E lentamente, a fruta que sonhava tanto sentiu que apodrecia. Percebia que, lentamente, sua vitalidade ia embora e ela se tornava bolor e que o bolor a devorava por dentro, de maneira horrível. E os dias passaram, sem que nada a protegesse de seu destino tão desejado de estar no chão, junto com as folhas. E olhava pra cima e desejava o galho, agora fora de seu alcance e pensava no quanto seria feliz ali, presa a ele, e no quanto era boa a sensação de sentir o vento lá de cima. E passava os dias contemplando o galho, praguejando seu destino.
Até que um dia um animal passou por ali e, faminto, a devorou. De certa maneira foi um ato de amizade.
Escrito por Não é pra gostar às 10h48
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